Os meninos tinham direitos. As meninas tinham deveres.
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Desde pequenina houve uma frase invisível que eu sentia no ar da casa.
Não estava escrita em lado nenhum.
Ninguém a tinha declarado oficialmente.
Mas existia.
Os meninos tinham direitos.
As meninas tinham deveres.
Eu não sabia ainda o que era o patriarcado.
Não sabia o que era sociologia, nem feminismo, nem estruturas culturais.
Mas sentia perfeitamente a injustiça.
Sentia-a na forma como as expectativas se distribuíam.
Na forma como os comportamentos eram tolerados nuns e corrigidos noutros.
Na maneira como os horizontes pareciam mais largos para uns e mais estreitos para outrAs.
Os rapazes podiam explorar o mundo.
As raparigas deviam aprender a comportar-se dentro dele.
Era uma educação que não vinha necessariamente da maldade.
Vinha da tradição.
E a tradição tem uma força silenciosa que às vezes parece inevitável.
Mas eu nunca fui muito boa a aceitar inevitabilidades.
Desde miúda que havia em mim uma inquietação difícil de explicar.
Uma espécie de pergunta constante sobre os limites que me eram apresentados.
Porque é que isto é assim?
Porque é que aquilo não pode ser de outra forma?
Essa inquietação primeiro manifestou-se em pequenas revoltas domésticas.
Discussões.
Perguntas incómodas.
Recusas.
Hoje consigo ver essas memórias com alguma ternura.
Na altura eram apenas tentativas desajeitadas de uma criança para compreender o mundo.
Mas, sem saber, eu estava a começar uma luta que me iria acompanhar pela vida inteira.
O mar não pergunta
Entre os meus interesses havia muitas coisas que não encaixavam muito bem na imagem tradicional de uma “menina de família”.
Gostava de música.
Gostava de desenhar.
Gostava de literatura.
Mas também gostava de desporto.
Gostava de movimento.
Gostava da natureza.
E sobretudo gostava do mar.
O mar tem uma característica que sempre me fascinou.
O mar não pergunta quem somos antes de nos desafiar.
Não pergunta se somos homens ou mulheres.
Não pergunta de onde vimos.
Não pergunta se temos autorização cultural para estar ali.
O mar pergunta outra coisa.
Pergunta se estamos dispostos a entrar.
E quando entrei percebi duas coisas.
A primeira foi a liberdade.
A segunda foi a realidade.
Porque mesmo nos lugares onde a natureza parece mais livre, as estruturas humanas continuam presentes.
Quando comecei a surfar, o surf era profundamente masculino.
Não apenas na presença.
Mas na cultura.
Nas oportunidades.
Nas portas que se abriam, ou que se fechavam.
Era um mundo onde os homens dominavam a narrativa, a visibilidade, os patrocínios, as decisões.
E isso não era necessariamente fruto de conspiração.
Era simplesmente o resultado de décadas de uma cultura construída quase exclusivamente por homens.
As lutas que não aparecem nos troféus
Ao longo da minha vida conquistei algumas coisas.
Ganhei um circuito nacional.
Construí uma escola.
Criei um método de ensino e treino.
Trabalhei com milhares de praticantes.
Mas os troféus contam apenas uma parte da história.
Porque há lutas que não aparecem em pódios.
Lutas invisíveis.
Lutas contra expectativas.
Contra desconfianças.
Contra aquela sensação permanente de que precisamos provar duas vezes aquilo que outros apenas precisam declarar.
Com o tempo fui percebendo algo que muitas mulheres reconhecem imediatamente.
Não basta ser competente.
É preciso também resistir.
Resistir a estruturas que não foram pensadas para nós.
Resistir ao cansaço de abrir caminhos onde antes não existiam.
E, às vezes, resistir também a outras mulheres.
Porque o patriarcado não vive apenas nos homens.
Vive em culturas.
Em hábitos.
Em medos.
E às vezes até nas próprias mulheres que aprenderam a sobreviver dentro dele.
As mulheres que vieram antes
Quando pensamos na história das mulheres é fácil cair em simplificações.
Ou se fala de heroínas quase mitológicas.
Ou se fala de vítimas permanentes.
Mas a verdade é muito mais complexa.
A história das mulheres é uma longa travessia.
Uma travessia feita de avanços lentos, de retrocessos, de conquistas discretas que às vezes só se tornam visíveis décadas mais tarde.
Durante séculos as mulheres foram excluídas da educação formal.
Excluídas da política.
Excluídas de muitas profissões.
E mesmo assim estiveram sempre lá.
Na ciência.
Na arte.
Na cultura.
Na sobrevivência das famílias e das comunidades.
Muitas vezes sem nome.
A história oficial raramente registou essas presenças.
Mas elas existiram.
E é graças a essas mulheres, conhecidas e desconhecidas, que hoje temos espaços que antes eram impensáveis.
O surf e as mulheres
No início dos anos 2000 senti que algo precisava mudar também no surf.
Foi assim que nasceram os encontros femininos de surf no Baleal.
Em 2002 juntámos 87 mulheres.
No ano seguinte já eram cerca de 185.
Durante alguns dias a praia transformou-se num espaço onde as mulheres podiam experimentar o surf sem o peso das expectativas habituais.
Sem comparação constante.
Sem necessidade de provar nada a ninguém.
Apenas aprender.
Partilhar.
Apoiar-se.
Hoje programas de mentoria feminina parecem algo comum.
Na altura não eram.
Mas a necessidade já existia.
Porque as mulheres sempre souberam que, quando se unem, conseguem abrir caminhos mais depressa.
O mundo ainda está a mudar
É importante reconhecer o progresso.
Hoje há mulheres em praticamente todas as áreas da sociedade.
Na ciência.
Na política.
No desporto.
Na liderança.
Mas também é importante reconhecer que a igualdade não está completa.
Ainda há desigualdades salariais.
Ainda há barreiras culturais.
Ainda há estruturas onde a presença feminina continua a ser minoritária.
E talvez mais importante do que tudo:
a luta pela igualdade não pode ser uma guerra entre sexos.
Precisa de ser um trabalho conjunto.
Porque uma sociedade mais justa para as mulheres é também uma sociedade melhor para os homens.
Mais livre.
Mais equilibrada.
Mais humana.
A travessia continua
Hoje celebra-se o Dia Internacional da Mulher.
Mas este dia não nasceu como celebração.
Nasceu como memória de lutas.
E como lembrete de que a igualdade não é um estado automático da sociedade.
É uma construção.
Uma construção que precisa de consciência, de união e de coragem.
Coragem para continuar a questionar estruturas injustas.
Coragem para apoiar outras mulheres.
Coragem para não esquecer as conquistas das gerações anteriores.
Porque há apenas algumas décadas muitas mulheres não podiam sequer votar.
Hoje podemos.
E isso não é um detalhe.
É uma responsabilidade.
Ser mulher
Ser mulher nunca foi apenas uma condição biológica.
É também uma experiência cultural.
Uma experiência que combina força e vulnerabilidade, cuidado e ambição, responsabilidade e desejo de liberdade.
As mulheres foram durante muito tempo ensinadas a ocupar pouco espaço.
Mas a história mostra que, sempre que tiveram oportunidade, ocuparam o mundo inteiro.
Talvez seja isso que sempre me moveu.
Nunca quis ser mais do que ninguém.
Apenas quis ter o mesmo direito de tentar.
E talvez seja isso
Talvez seja isso que celebramos neste dia.
Não uma categoria.
Mas uma travessia.
A travessia de milhões de mulheres que, geração após geração, empurraram um pouco mais a fronteira do possível.
Algumas ficaram na história.
Muitas nunca tiveram nome.
Mas todas contribuíram para que o espaço onde hoje caminhamos seja um pouco mais largo do que aquele onde nasceram.
A verdade é que nenhuma geração começa do zero.
Cada passo que damos foi preparado por mulheres que vieram antes.
E cada passo que damos hoje
abre caminho para as que virão depois.
Talvez seja isso, afinal, ser mulher.
Não aceitar passivamente os limites do tempo em que nascemos.
Mas empurrá-los.
Um pouco mais.
Todos os dias.
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Há histórias que só fazem sentido quando circulam.
