Planeamento de época no surf: em 2026

Surf em 2026: quando o talento deixa de compensar a falta de sistema, “aguentar tudo” deixa de ser estratégia e passa a ter um custo

Por Professora Inês Tralha

O surf profissionalizou quase tudo: circuito competitivo, exposição mediática, análise de vídeo, desenvolvimento e construção de pranchas e seus materiais, dados e até a promessa de repetição perfeita com a evolução altamente científica e tecnológica que as piscinas de ondas prometem. No entanto, manteve, em grande parte, um modelo de preparação que ainda trata a época como um contínuo de viagens e o corpo como um recurso que “dá para esticar”.

Em 2026, esse desfasamento já não é apenas uma imperfeição cultural do meio: é um fator de risco para performance, saúde e longevidade de carreira.

O que mudou não foi o oceano. Mudou a densidade do jogo. Em 2026, o diferencial já não é “querer mais” ou “surfar mais horas”. O diferencial é ter não negociáveis: picos definidos, carga governada, recuperação respeitada, sono e nutrição geridos, e alguém a coordenar a equipa, antes que o talento vire lotaria.

A falha não é um detalhe técnico. É uma arquitetura repetida: calendário sem estratégia, treino sem ciência, equipa sem coordenação. Depois chama-se “azar” ao que era previsível.

A diferença entre modalidades maduras e modalidades ainda “românticas” não está no amor ao jogo. Está no facto de, nas primeiras, a carreira ser gerida como sistema: picos planeados, carga monitorizada, equipa integrada, decisões com dono e uma base atlética construída antes de qualquer “floreado”.

Este artigo é uma versão longa e completa do post: a mesma tese, com rigor de modalidades maduras e aplicação direta ao surf competitivo e formativo.


1. O que outras modalidades já aprenderam (e o surf ainda debate como opinião)

Em modalidades com calendários densos e custo fisiológico alto (atletismo, ciclismo, natação, desportos coletivos, desportos de combate…), a pergunta central não é “treinei muito?”, mas antes “treinei certo para estar no máximo quando interessa?”.

A isso chama-se periodização, a que a literatura relativa descreve precisamente como: organizar estímulos ao longo do tempo para construir qualidades por fases e alinhar o desempenho para momentos-alvo, em vez de tentar estar “no auge” o ano todo.

Modelos tradicionais e modelos em blocos (block periodization) coexistem e concentram estímulos e exploram efeitos residuais de treino, muito discutidos na preparação de alto rendimento. Diferem na forma, mas convergem no princípio: sequência, intenção e timing. O treino deixa de ser uma lista de sessões e passa a ser uma engenharia de adaptação.

Quando chega o dia de competir a sério, modalidades de performance mensuráveis dão outro nome ao que no surf muitas vezes é improviso. Nestes desportos, chamam a peça pelo seu nome: taper e peaking. A evidência mostra ganhos consistentes quando a carga é reduzida de forma planeada antes do evento, com redução de volume e manutenção de intensidade e qualidade, em vez de “descansar quando dá”.

Tradução para o surf: não é treinar mais. É desenhar a época para chegar forte, inteiro e afiado nos picos que definem ranking, patrocinadores e carreira.


2. A época não é um conjunto de provas: é arquitetura

Um calendário saturado sem estratégia transforma o atleta num gestor de danos. E isso não é um problema moral (“falta de disciplina”), é um problema de desenho.

A ciência do treino e os consensos médicos no alto rendimento convergem num ponto: carga mal gerida aumenta risco de lesão e doença, e compromete adaptação.

O Comité Olímpico Internacional (COI ou IOC), sintetizou princípios e recomendações práticas para prescrever e monitorizar carga (externa e interna), integrando também bem-estar e stress. Um ponto que vale para qualquer modalidade: carga mal gerida aumenta o risco de lesão e doença, compromete a adaptação e fragiliza o rendimento. Não é só “quanto” se faz. É como se varia, como se recupera e como se decide.

No futebol e no rugby, por exemplo, a conversa sobre carga evoluiu para identificar zonas de risco quando há picos abruptos de carga, e para o princípio, muitas vezes mal-entendido, de que alta preparação crónica pode proteger, enquanto aumentos agudos desorganizados aumentam o risco.

(Nota importante para rigor: ferramentas como ACWR têm utilidade em contexto, mas também críticas metodológicas; o ponto aqui não é “seguir uma métrica”, é governar variação de carga com método.)

O erro típico no surf tem uma forma socialmente aceite: “ir a todas”. Soa a ambição, mas é clara ausência de uma lógica anual clara (macro / meso / micro), critérios para escolher provas-alvo e a coragem técnica de assumir que “ir a todas” raramente é ambição, é ausência de plano.

O corpo não consegue construir, só aguenta. E quando só aguenta, a conta aparece: lesões repetidas, regressos apressados, decisões tomadas sob cansaço, sem discernimento apurado, e picos de resultados importantes falhados que depois são atribuídos ao mar, ao sorteio ou ao “não deu hoje”, vim só para me divertir.

A questão técnica é simples e dura: ninguém sustenta um ano inteiro em pico. O que se sustenta é uma época com fases, alvos e critérios.


3. Periodização no surf: dá para fazer sem matar a cultura

Periodizar surf não é engessar o atleta nem transformar o mar num laboratório. É aceitar que o mar já é um estímulo potente e imprevisível, e que a preparação tem de compensar essa imprevisibilidade com governança. A imprevisibilidade do mar, apesar de padronizável, é na verdade um dado que sabemos que é constante.

Uma época bem desenhada inclui macro, meso e microciclos, com transições claras entre construção, manutenção e competição. A ausência dessa diferenciação cria um contínuo: competir, viajar, treinar e recuperar “quando dá”. O resultado é previsível.

E aqui entra um erro de linguagem que custa caro: chamar “detalhe” ao corpo. O corpo não é detalhe, é o sistema onde o talento acontece.


4. A equipa por trás de um atleta não é companhia: é governança

No alto rendimento, ter equipa não é ter gente à volta. Muito menos um treinador para muitos atletas, a competirem entre si, pelos mesmos títulos. É ter um modelo integrado de saúde, performance e longevidade, é ter papéis definidos, decisões alinhadas e um responsável pela coordenação. A literatura e a prática de alto rendimento convergem num ponto: a integração entre treino, medicina e performance é um modelo de gestão, não um luxo.

O British Journal of Sports Medicine descreve modelos integrados de saúde e performance onde medicina, fisioterapia e treino operam em sinergia, com linhas de responsabilidade claras — precisamente para evitar o caos que nasce quando cada elemento otimiza o seu “pedaço” sem uma narrativa comum.

Várias organizações formalizaram o conceito de Integrated Support Team, com ciência, medicina e gestão a suportarem objetivos comuns.

No surf, o treinador de ocasião, a equipa retalhada costuma ter uma geometria conhecida, que gera três problemas sistémicos:
Decisão sem dono (carga, recuperação, retorno após dor ou lesão)

Decisão sem responsável (carga, recuperação, retorno após dor ou lesão)
Conflitos de interesse normalizados (atenção dividida, atletas-adversários no mesmo contexto competitivo)
Ética diluída (informação sensível, prioridades confundidas entre performance imediata e carreira).

O modelo maduro inclui, conforme o nível e o momento da época: uma figura central, o Head Coach (ou Performance Lead). Não é “o chefe por ego”. É o coordenador académico que conhece o todo e todas as matérias, medeia interesses, define guidelines, desenha com o atleta o plano anual (ou plurianual) e defende os objetivos ambiciosos do atleta com justiça. Depois, distribui responsabilidade e cobra coerência.

Uma equipa técnica completa, ajustada ao nível e ao momento da época, pode incluir:

  • Treinador de surf (técnica, tática, leitura de mar, tomada de decisão)
  • Preparador físico (Strength & Conditioning, ou seja, força e preparação física orientada para performance)
  • Fisioterapeuta e médico do desporto (integridade tecidual, diagnóstico, retorno e prevenção)
  • Nutricionista (energia, hidratação, recuperação, composição, rotina em viagem)
  • Psicólogo ou especialista em saúde mental (pressão, identidade, coping, transições)
  • Analista (vídeo, dados, scouting de picos e padrões)
  • Agente ou gestor de carreira (contratos, patrocínios, logística, orçamento, estratégia de percurso)

O ponto não é “ter tudo”. O ponto é saber quem decide o quê, e quem responde pelo alinhamento. E devem existir, não por luxo, mas porque o calendário e a viagem fazem parte do estímulo (e do risco).


5. “Treinador surfista” e o equívoco da experiência como método

O Surf normalizou se o “treinador surfista” como se experiência bastasse: muito mar, pouca ciência, quase nenhuma individualização. E isso vê-se onde é impossível fingir: sexo, idade, maturação e histórico a receberem o mesmo pacote. Neste modelo, não falham só resultados. Falha a gestão. Falha o corpo. Falha a carreira.

Isto não é ataque pessoal. Muitas pessoas fazem o melhor que sabem. E fazem. Parte que lhes compete, com bons resultados mensuráveis. O problema é que, em 2026, o jogo subiu de nível: a diferença entre orientar e treinar é método. Método é planeamento, avaliação, progressão, monitorização e ética.

E aqui convém dizer o óbvio: o surf tolera demasiado: treinar clientes e adversários diretos no mesmo pico, com a mesma atenção e a mesma partilha de informação, cria conflito de interesse. Em qualquer outro desporto, isso teria regras explícitas. No surf, muitas vezes é “na boa” e é divertido ter companhia para treinar, até deixar de ser.


6. Ética e deontologia no surf: o conflito de interesse “na boa” é custo escondido

O problema não é só técnico; é ético.

Confidencialidade: o que um atleta partilha não é “material de conversa” em pico com adversários.

Conflito de interesse: treinar atletas adversários diretos no mesmo bloco, com a mesma atenção e informação, deve ter regras explícitas ou separação.

Fronteiras de papel: treinador ≠ manager ≠ amigo ≠ agente ≠ Pai ≠ patrocinador.

Ideia central: equipa sem governança vira interferência.

No surf, discute-se muito o que é técnico e pouco o que é ético. Só que a ética não é um adorno moral: é uma variável de performance e de proteção de carreira. Quando o circuito acelera e a margem fisiológica diminui, aquilo que antes era tolerado como “ambiente de praia” torna-se um sistema de riscos silenciosos.

O primeiro risco é a confidencialidade. Um atleta partilha vulnerabilidades reais: histórico de lesões, medos em certas condições, limitações de mobilidade, ajustes de treino, fragilidades mentais pós-queda, padrões de decisão em heat, dinâmicas com patrocinadores. Esse conhecimento não é conversa de bastidor. É informação sensível que, se circular num pico onde competem adversários diretos, deixa de ser “ambiente” e passa a ser vantagem competitiva. Em modalidades maduras, isto não é discutível: existem cultura, norma e fronteira.

O segundo risco é o conflito de interesse, especialmente quando se normaliza o “treinador de ocasião” a treinar simultaneamente atletas que competem entre si, na mesma praia, no mesmo bloco, com a mesma atenção e o mesmo acesso. Mais grave, quando o “treinador de ocasião” é competidor direto do seu suposto atleta. O problema não é a boa intenção do treinador. Ou falta dela. O problema é a estrutura: atenção dispersa, prioridades incompatíveis, decisões tomadas em modo automático, e, sobretudo, impossibilidade prática de garantir equidade e proteção total para o teu cliente quando estás a investir energia competitiva no adversário dele. Em qualquer outro desporto, isto implicaria regras explícitas: separação de blocos, contratos claros, limites de partilha de informação, e critérios para recusar cenários que comprometam o atleta.

O terceiro risco é a confusão das fronteiras de papel. No surf, o treinador muitas vezes acumula funções: técnico, gestor emocional, conselheiro de vida, agente improvisado, mediador com patrocínios, decisor logístico e, por vezes, “amigo”. Parece proximidade; muitas vezes é falta de governança. Porque cada papel tem deveres diferentes e conflitos diferentes. Um treinador não pode ser simultaneamente o guardião do pico do atleta e o mensageiro do patrocinador que quer exposição imediata. Um manager não pode decidir carga de treino. Um amigo não pode ser o árbitro do “não vais a esta prova” quando o atleta está ansioso. Quando estas fronteiras não existem, quem manda é o ruído, e o atleta torna-se refém de urgências alheias.

É aqui que a ideia central fica inevitável: equipa sem governança vira interferência. E governança não é autoritarismo; é clareza. Quem decide o quê? Quem responde por quê? Que informação é confidencial. Que conflitos são aceitáveis e quais são proibidos? Que interesses são prioritários: o pico, a saúde e a longevidade, ou a agenda do curto prazo.

Se o surf quer performance de atleta, precisa também de ética de atleta. Porque, em 2026, o custo escondido do “na boa” não aparece num post. Aparece na carreira.

Mini-checklist prático (mínimo exigível para uma carreira séria):

  • Existem contratos de acompanhamento e regras de confidencialidade?
  • O treinador acompanha adversários diretos do atleta? Em que condições e com que limites?
  • Quem é o coordenador final da época (Head Coach/Performance Lead)?
  • Quem fala com patrocinadores e gere logística (gestor de carreira), sem contaminar decisões de treino?
  • O atleta sabe quando o treinador está a falar como técnico e quando está a falar como “amigo”?

7. Preparação física: sem base atlética, o “funcional” vira teatro

O surf saltou a base atlética!

Há ainda um erro que o surf normalizou e que em 2026 já não é “pormenor”: tratar corpos diferentes como se respondessem da mesma forma. O problema não é político, é fisiológico e de desenvolvimento. Treinar uma atleta adolescente, uma jovem adulta e uma mulher adulta como se fossem “o mesmo corpo com tamanhos diferentes” é transformar individualização em ruído.

No sexo feminino, a preparação física e o planeamento de época têm variáveis que não podem ser tratadas como superstição nem como desculpa: disponibilidade energética, saúde menstrual, variação de sintomas ao longo do ciclo, risco de défices (RED-S), impacto do stress e do sono, e fases específicas como gravidez e pós-parto quando aplicável. Ignorar isto não “endurece” a atleta; apenas desloca o custo para lesões, fadiga persistente, alterações de humor, quebra de rendimento e interrupções repetidas de treino.

E quando falamos de idade, a diferença não é só de experiência. É de maturação. Em adolescentes, há picos de crescimento, alterações de coordenação, mudanças rápidas de massa corporal e de alavancas, e uma janela crítica de construção de força e técnica de movimento. Se a resposta do sistema é “a mesma sessão para todos”, o que se chama disciplina é, muitas vezes, ausência de critério. Em jovens adultos, o erro típico é tratar a capacidade de aguentar volume como sinal de prontidão para competir sem fases. Em adultos, o erro é insistir no mesmo modelo de carga como se recuperação fosse opcional e histórico de lesões não existisse.

A consequência prática é simples: a base atlética e a progressão têm de ser desenhadas por perfil: sexo, idade, maturação, histórico, calendário e objetivos. Quando isto é feito com método, o surf ganha o que mais falta: continuidade. E continuidade é a moeda real da evolução.

Também é um erro cultural frequente em modalidades de habilidades: saltar a construção de força e capacidades gerais e ir direto para acrobacias “funcionais”, instabilidade e exercícios visualmente complexos. Isso pode parecer específico, mas sem base é ruído.

É sedutor para redes sociais, mas frágil como preparação.

A base atlética é clássica e continua a ser a base por um motivo: força geral, competência de movimento, capacidade de produzir e absorver força, potência progressiva e condicionamento que respeita exigências reais. Em jovens, a evidência e as posições de referência defendem treino de força bem desenhado e supervisionado como seguro e benéfico, desmontando o mito de que “força é perigosa para eles”.

No surf, isto é ainda mais crítico por três razões práticas:

  • A remada exige volume elevado e tolerância do ombro e da cintura escapular, e a literatura descreve alta incidência de queixas crónicas associadas a desequilíbrios e padrões escapulares.
  • O wave riding exige força, potência e controlo unilateral no membro inferior, com equilíbrio entre lateralidades, sem “compensar para sempre”.
  • A progressão moderna aumentou impactos: aéreos, aterragem, tubos em ondas pesadas, quedas em mar grande. O surf contemporâneo pede estrutura para absorver forças, especialmente no tornozelo, no joelho e na cadeia posterior. Há investigação recente a olhar para tarefas de aterragem e fatores associados ao risco em manobras aéreas.

Quando a preparação ignora isto, o corpo paga em padrões previsíveis: ombro crónico, sobrecarga por volume repetitivo, e entorses ou lesões de tornozelo em contextos de impacto e aterragem.

É simples: complexidade não é progressão. Progressão é base primeiro, especificidade depois.

A sequência defendida é clássica em força e condicionamento e não depende de modas:

  • Base: força geral, capacidade de absorção, mobilidade útil, competência técnica de padrões (agachar, puxar, empurrar, hinge, unilaterais).
  • Transição: potência, elasticidade, velocidade e resistência específica.
  • Especificidade: gestos e cenários “funcionais” que fazem sentido porque existe base.

Para desmontar o mito “força é perigosa para jovens”, a posição da NSCA refere que treino resistido bem desenhado e supervisionado é considerado seguro e útil para jovens.

No surf, isto liga-se também à epidemiologia e às queixas típicas: há revisão sistemática sobre “surfer’s shoulder” e alta incidência de queixas crónicas no ombro associadas a desequilíbrios e padrões escapulares.

Estudos sobre exigências fisiológicas do surf competitivo ajudam a justificar por que a preparação precisa ser híbrida e específica: remada, intermitência e exigência do wave riding.

Regra de ouro: complexidade não é progressão. Sem base de força e capacidade, complexidade vira ruído e, frequentemente, lesão.


8. Surf como modalidade híbrida: por que isto muda o treino

O surf pede resistência intermitente, potência, controlo, tomada de decisão e tolerância de volume, com picos de intensidade em janelas curtas. Estudos sobre exigências fisiológicas e características do tempo-movimento em competição ajudam a fundamentar esta natureza híbrida e a necessidade de condicionar remada, recuperação e execução.

A evolução das piscinas de ondas acrescenta outra camada: menos variabilidade externa, mais repetição, mais volume de manobras progressivas, mais impactos acumulados. Isso aumenta a necessidade de estrutura, não diminui.

O surf não perdeu cultura por aceitar ciência. O surf só perde carreira quando recusa o sistema.


9. Especialização precoce: quando “só surfar” encurta possibilidades

Muitos surfistas crescem a surfar desde cedo, o que cria ótimas virtudes técnicas, ninguém discute isso. O problema é o custo oculto quando “só surfar” substitui o desenvolvimento atlético, social e educativo.

Consensos (AOSSM) em várias modalidades apontam que a especialização precoce não é requisito para a elite na maioria dos desportos e pode aumentar o risco de lesões por sobreuso e burnout, defendendo diversidade e repertório motora e atlético a longo prazo e participação multidesportiva.

Modelos de desenvolvimento a longo prazo (LTAD, Long Term Athlete Development) reforçam a ideia de literacia física: construir competências fundamentais antes de hiperespecializar, respeitando maturação e fases de crescimento.

Tradução para o surf: “só surfar” pode produzir um atleta tecnicamente competente, mas com lacunas de força, potência e tolerância de carga, justamente o que sustenta uma época longa e reduz o risco.


10. Retorno à competição: coragem não é critério

Lesão, burnout, doença, gravidez, no surf, romantiza-se “voltar rápido”. Em alto rendimento, voltar a competir, é gestão de risco, não prova de caráter.

O consenso de referência sobre return to sport é claro: a decisão é complexa, multifatorial, colaborativa e deve ser encarada como gestão de risco.

Aqui, a equipa integrada deixa de ser teoria e passa a ser proteção prática:

o clínico gere integridade tecidual e risco
o preparador físico gere tolerância de carga e progressão
o treinador técnico gere exigência específica e exposição ao mar
o coordenador garante coerência e assume responsabilidade pela decisão final

Sem isto, o atleta volta por pressão, por medo de perder lugar, por ansiedade ou por ruído. E depois chama-se “azar” ao que era previsível.


11. Viagens, fusos horários e logística: o inimigo invisível dos picos

O surf internacional é um desporto de viagem. E viagem não é neutra. É stress circadiano, fadiga, alteração de clima, sono, de alimentação e recuperação. Há literatura clássica sobre jet lag e desempenho, e investigação recente a mostrar perturbações do sono e aumento de fadiga após viagens longas.

O padrão que se vê na prática é simples: compra se o voo mais barato, sacrifica noites, chega se em cima da hora e mantém se carga e expectativas no dia seguinte, como se o sistema nervoso reiniciasse sozinho. O custo aparece onde dói mais no surf: tomada de decisão rápida, timing, leitura e execução sob stress.

Em modalidades globais, isto entra no planeamento do pico: quando chegar, quando treinar, quando expor à luz, quando reduzir carga e quando recuperar. No surf, entra como nota de rodapé e sai como colapso no desempenho.


12. Monitorização simples, sem religião de dados

Cada época desportiva só pode começar com um protocolo de avaliação, para posteriormente aplicar a melhor estratégia/plano para cada praticante/atleta e construir uma primeira base de monitorização.

Monitorizar não é colecionar gráficos. É criar consistência de decisão.

E aqui há um detalhe que separa monitorização séria de “dados bonitos”: a leitura tem de respeitar sexo e fase de desenvolvimento. Para muitas atletas, registar sintomas do ciclo, variações de energia, sono e dor não é “drama”; é sinal vital de performance e de risco. Em adolescentes, acrescenta-se ainda o contexto de crescimento, escola, stress e recuperação real. Se a equipa não sabe ler estes sinais, a monitorização vira ritual, e o corpo continua a pagar a conta.

O IOC recomenda monitorizar carga interna e externa, bem-estar e fatores psicológicos, porque a carga real não é só treino, é também competição, viagem, stress e contexto.

Um sistema mínimo viável, que qualquer equipa pequena consegue implementar, pode incluir:

  • sRPE (perceção de esforço multiplicada pela duração)
  • Sono (quantidade e qualidade)
  • Dor e rigidez (escala diária simples)
  • Bem-estar (stress, humor, fadiga)
  • Notas de viagem (fuso, horas de voo, rotina)

Muita gente tenta resolver isto com um número famoso: ACWR (acute: chronic workload ratio, rácio entre carga aguda e carga crónica). Este foi popularizado em modelos de risco, mas também tem críticas metodológicas e limitações para uso prescritivo como “semáforo” universal. O ponto não é seguir uma métrica. É governar variação de carga com método e individualização.

Medir não substitui planear. Mas planear sem medir vira crença.


13. Modelo de decisão de época: A, B e C não é moda, é governança

Em vez de “ir a todas”, uma arquitetura de provas traz maturidade ao sistema:

  • Provas A (picos): poucas etapas onde se pretende estar no máximo, por ranking, patrocinador, condições favoráveis e janela de forma.
  • Provas B (consolidação): etapas competitivas em que o objetivo é executar processos, ganhar ritmo e ajustar, sem exigir pico total.
  • Provas C (estratégicas ou logísticas): etapas em que o custo supera o benefício, por fuso, sobreposição, risco, orçamento, calendário escolar ou momento físico. Podem ser evitadas ou usadas com critério.

Isto muda tudo: muda o treino, muda o taper, muda a recuperação, muda as decisões de viagem e muda a própria ética da equipa, porque deixa de ser impulso e passa a ser estratégia.


14. Saúde mental: quando a cabeça quebra e o meio chama “fraqueza”

Quando se fala em “o corpo cobrar juros”, não é metáfora. A pressão, instabilidade, lesões, resultados e identidade podem amplificar sintomas de saúde mental. O IOC reforça que saúde mental e física são inseparáveis e que sintomas podem afetar performance, risco e recuperação.

A consequência cultural no surf é dupla: quando o corpo cede, chama-se azar; quando a cabeça quebra, chama-se fraqueza. Ambas as leituras protegem o sistema e deixam o atleta sozinho.

Tratar saúde mental como parte do sistema não é dramatizar. É profissionalizar.


15. Carreira: o erro do surf não é só físico, é biográfico

A fragilidade do modelo atual não aparece apenas em costas e ombros lesionados e tornozelos operados. Aparece quando a carreira abranda ou termina e o atleta descobre que viveu numa mononidentidade: “sou surfista” como única competência socialmente validada.

A literatura sobre transição de carreira descreve precisamente isto: a saída do desporto pode ser suave ou uma crise, dependendo de recursos como educação, rede, competências transferíveis e preparação.

No surf, isto é estrutural porque a especialização precoce e o calendário itinerante incentivam uma escolha silenciosa: adiar estudo, adiar profissão, adiar literacia financeira, adiar experiência fora do circuito.

As diretrizes europeias sobre “dual career” existem para contrariar este padrão e proteger o atleta: conciliar desporto com educação ou trabalho exige estrutura e apoios, não improviso.

E há uma consequência que o meio raramente nomeia: quando o atleta não tem plano B, o plano B vira “ser treinador”. Só que, se o atleta foi formado num modelo improvisado, sem ciência, sem ética de equipa e sem periodização, tende a reproduzir o que conhece, não por maldade, mas por herança.

É assim que o sistema se perpetua: consome carreiras e depois transforma sobreviventes em replicadores.

Se este modelo produz atletas sem plano B, são eles que amanhã passam a ser treinadores e perpetuam o mesmo sistema que os consumiu.


16. O “plano B” mínimo viável, sem romantismo

Se o objetivo é ser completo e aplicável, o mínimo viável tem três camadas:

  • Camada educacional: terminar percurso escolar ou credencial equivalente, aprender línguas, e construir literacia financeira básica, porque o surf é também orçamento, impostos e decisões sob incerteza.
  • Camada profissional: criar contacto real com trabalho fora do surf, nem que seja um projeto por trimestre, remoto ou parcial, para construir experiência e rede.
  • Camada de identidade: construir pertenças além do circuito, porque uma identidade que colapsa quando se para de competir é um risco psicológico e social.

E isto liga-se à sustentabilidade económica: patrocínios oscilam, custos de viagem e equipa sobem, e sem gestão de carreira o atleta vive em reação. É aqui que entra o agente ou gestor de carreira como função séria: proteger contratos, negociar calendários, equilibrar exposição e performance e gerir risco financeiro.


17. A pergunta prática que decide tudo

Em 2026, o diferencial não é ser mais duro. É ter não negociáveis: picos definidos, carga governada, recuperação respeitada, sono, nutrição, jet lag gerido e uma equipa coordenada.

A pergunta não é se vais treinar mais. É se vais continuar em modo Einstyle: fazer tudo igual e chamar “azar” ao resultado, ou se vais medir, planear e escolher, com coragem, o que muda já nesta época.

Surfistas e Treinadores: O que é que vocês vão mudar em 2026 para obter resultados diferentes / melhores: avaliação, picos, carga ou ética de equipa?

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