Periodização no surf: aguentar tudo não é um plano

Por Professora Inês Tralha

Vemos a onda. A manobra. A nota. O resultado.

O que nem sempre vemos é a época inteira que trouxe aquele corpo até ali.

O surf profissionalizou o circuito, a exposição mediática, a análise de vídeo e o desenvolvimento das pranchas. Mas continua a tolerar uma ideia muito conveniente: o atleta vai viajando, competindo, treinando e recupera quando puder.

Como se o corpo fosse um recurso que dá para esticar.

Aguentar tudo pode parecer ambição. Não chega para ser estratégia.

Organizar a época para chegar bem quando interessa

A periodização organiza o treino ao longo do tempo. Define fases, objetivos e momentos em que se pretende estar nas melhores condições para competir.

Não se trata de tentar estar no auge o ano inteiro. Trata-se de distinguir construção, manutenção, competição e recuperação. De perceber o que estamos a pedir ao atleta, em que momento e com que finalidade.

Uma época não é apenas uma lista de provas. Inclui treino, viagens, sono, recuperação e decisões sobre onde vale a pena investir energia.

Se tudo é prioridade, deixa de haver prioridade.

Escolher provas também é trabalho técnico

No meu artigo sobre planeamento de época, proponho uma organização das provas em três grupos.

As provas A são os momentos em que se pretende estar no máximo. As provas B permitem consolidar processos, ganhar ritmo e ajustar. Nas provas C, a decisão exige pesar o custo e o benefício: viagem, orçamento, risco, calendário escolar ou momento físico.

Isto exige uma coisa que o surf nem sempre aprecia: escolher. E assumir responsabilidade pela escolha.

Ir a todas não é, por si só, sinal de compromisso. É preciso saber o que cada prova faz dentro do plano.

O corpo não é um detalhe

Sexo, idade, maturação, histórico de lesões, calendário e objetivos não são notas de rodapé da preparação.

Uma adolescente, uma jovem adulta e uma mulher adulta não são o mesmo corpo com tamanhos diferentes. A individualização tem de aparecer nas decisões, não apenas na descrição do serviço.

Também não faz sentido saltar a construção de uma base atlética para chegar depressa aos exercícios que ficam bem num vídeo.

Complexidade não é progressão.

Primeiro, a base. Depois, a especificidade que essa base permite sustentar.

Uma equipa precisa de responsabilidades claras

Ter pessoas à volta de um atleta não é o mesmo que ter uma equipa coordenada.

Quem decide a carga? Quem acompanha a recuperação? Quem coordena a época? Quem protege informação que não deve circular entre adversários?

Treinador, preparador físico, profissionais de saúde e gestor de carreira têm funções diferentes. O alinhamento entre essas funções faz parte do trabalho.

Quando ninguém sabe quem decide, o atleta fica exposto a prioridades incompatíveis. E depois o resultado é explicado como azar.

Medir para decidir

Monitorizar não é colecionar gráficos. É criar consistência nas decisões.

Perceção de esforço, duração das sessões, sono, dor, rigidez, stress, humor, fadiga e viagens podem ajudar a organizar uma leitura do que está a acontecer. Nenhum número substitui o contexto da pessoa.

O objetivo não é obedecer a uma métrica. É avaliar, planear, observar e ajustar.

Enquanto acompanhamos o Championship Tour, vale a pena olhar para além do resultado de uma bateria. A carreira de um atleta não cabe na onda que acabámos de ver.

O que mudarias primeiro no teu planeamento: avaliação, escolha das provas, recuperação ou coordenação da equipa?

Leitura de aprofundamento: Planeamento de época no surf.

Queres trabalhar estes objetivos com acompanhamento?

Fala comigo sobre o teu contexto e o que procuras no surf. Podes também conhecer a Formação Desportiva. A proposta e a entrada dependem de avaliação e disponibilidade.

Para observar o que acontece dentro da bateria, lê como funciona a pontuação WSL.

Fotografia de arquivo da Good Surf Good Love. Não representa uma bateria da prova atual.

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