WSL · PIPELINE · 2024
Pipeline é para as miúdas.
As boas ondas também.
Inês Tralha · Good Surf Good Love
As mulheres não chegaram a Pipeline em 2024. Em 2024, muita gente finalmente reparou.
Caity Simmers venceu o Lexus Pipe Pro e deixou uma frase que não precisava de departamento de comunicação: «Pipeline’s for the fucking girls.»
Uma miúda ganha em Pipeline e diz aquilo. Sem pedir desculpa pelo palavrão, pela vitória ou por estar ali. Gosto. Mas gostava ainda mais que a frase já não tivesse razão de ser. Que ver mulheres a surfar aquelas ondas fosse tão natural como ver homens. Sem espanto suplementar, sem uma prova de competência em nome de todas as outras.
O episódio é de 2024. Não foi assim há tanto tempo. Ao recuperar esta história, em outubro de 2026, continuo a perguntar-me se as mentalidades acompanharam o surf destas mulheres.
Primeiro, acertemos a história
O primeiro dia de finais femininas do Championship Tour em Pipeline aconteceu a 20 de dezembro de 2020, integrado na época de 2021. Tyler Wright venceu. A Surfing Australia documentou esse momento.
Isto não significa que, até essa data, nenhuma mulher tivesse surfado Pipeline. Confundir a entrada de uma onda no calendário competitivo feminino com a chegada das mulheres àquela onda é apagar quem já lá estava.
A reportagem de Dashel Pierson, publicada na SURFER em setembro de 2024, recupera esse percurso e o papel de surfistas como Rochelle Ballard e Keala Kennelly. Em 2024, Caity venceu e Molly Picklum conseguiu o primeiro 10 feminino numa prova WSL em Pipeline. O dia ficou como uma demonstração do que aquelas atletas podiam fazer naquelas condições.
Não confundamos o que vemos com tudo o que existe
É aqui que a conversa me interessa enquanto professora e treinadora. O resultado que vemos não se separa da situação em que foi produzido.
Uma surfista pode ter capacidade para executar uma manobra e não encontrar, naquela bateria, uma onda que a permita. Uma onda que fecha cedo pode terminar uma tentativa. Uma parede aberta permite acelerar, escolher uma linha e preparar o que vem a seguir. A diferença não está toda nos pés de quem surfa.
Isto não retira mérito a quem resolve melhor uma bateria difícil. Adaptar-se também faz parte da competência. Mas, quando avaliamos o nível de uma modalidade ou de um grupo de atletas, não podemos fingir que as oportunidades de demonstração são um pormenor.
Se queres observar uma prova com este cuidado, lê também como observar uma prova de surf para além da manobra. Antes da nota, há uma onda, uma escolha e uma decisão.
A inclusão também se mede no espaço que se dá
Não me chega uma fotografia bonita com mulheres e a palavra «inclusão» por baixo. Interessa-me o que acontece depois de a fotografia estar feita.
Quem consegue entrar numa onda sem ter de justificar a sua presença? Quem pode falhar sem que a falha se transforme num comentário sobre todas as mulheres? Quem tem tempo para conhecer uma onda exigente, repetir tentativas e aprender com elas?
São perguntas para o surf profissional. Também são perguntas para a praia onde damos aulas.
Uma escola não controla o oceano. Controla muita coisa à volta da experiência: como organiza a sessão, como distribui a atenção, que equipamento disponibiliza, que objetivos define e como gere o risco. Não basta pôr toda a gente na água e chamar-lhe igualdade.
Não precisamos de facilitar a onda. Precisamos de levar as pessoas a sério.
Exigência e respeito podem estar na mesma sessão. O ponto de partida, a experiência, o controlo motor, a condição física e a relação de cada pessoa com o mar precisam de entrar no planeamento. Não se presume capacidade, nem incapacidade, só por se estar a olhar para uma mulher.
Treinar exige observar, individualizar, planear e voltar a avaliar. E exige criar oportunidades de aprendizagem que façam sentido para aquela pessoa. É uma responsabilidade de quem ensina, não uma tarefa que se entrega ao acaso.
É este compromisso que procuro no meu trabalho através do método METSIT®. O método orienta a intervenção. A pessoa continua a ser o centro dela.
Pipeline foi para as miúdas. E agora?
Não quero que um dia extraordinário sirva para nos deixar descansados. Quero que nos torne mais atentos ao resto dos dias.
Quando voltarmos a ouvir que as mulheres não fazem o mesmo espetáculo, talvez possamos começar por perguntar: em que ondas, com que oportunidades e ao longo de quanto tempo?
Se procuras acompanhamento no teu surf, marca uma primeira sessão de avaliação comigo. Começamos pelo teu ponto de partida, pelos teus objetivos e pelo trabalho necessário para os aproximar.
Reflexão sobre a época de 2024, recuperada e revista em outubro de 2026. Os factos históricos estão ligados às respetivas fontes. Este texto de opinião não é uma reprodução da reportagem da SURFER.